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segunda-feira, 19 de março de 2018

[resenha] Eu, Christiane F., 13 anos, drogada e prostituída...

Autor: depoimentos recolhidos por Kai Hermnn e Horst Rieck
ISBN: 978-85-286-0470-2
Título Original: Wir Kinder vom Bahnhof Zoo
Tradução: Maria Celeste Marcondes
Cidade/editora: Rio de Janeiro/Bertrand Brasil
Ano de Publicação: 2010
Páginas: 352
Christiane vivia com sua família em uma fazenda, onde brincava e cuidava dos animais, era uma criança feliz. Ela estava ansiosa para conhecer sua nova casa em Berlim, onde seus pais trabalhariam e ela teria um quarto todo decorado, mas isso nunca veio acontecer, indo parar em um dos apartamentos de um conjunto habitacional com apenas dois cômodos e meios (sendo essa metade onde ficava o quarto dela e da irmã mais nova).

Diferente do que ela estava acostumada, passou a viver em um ambiente de competição e agressividade, onde todos queriam se mostrar o mais forte, pois estes eram temidos e admirados. No conjunto residencial Gropius não existia atividades de lazer ou um espaço para brincadeiras adequadas para as crianças, então elas tinham que ignorar as placas de proibição e aprender desde cedo como fugir dos zeladores.
 O pai era muito agressivo e a mãe de Christiane acabou se separando e indo morar com seu novo companheiro. Christiane não gostava dele, e as brigas não demoraram para começar, e com essa história e se sentindo perdida, ao entrar em uma nova escola vê em uma garota seu ideal e passa a fazer de tudo para fazer parte da turma: se vestindo igual, frequentando os mesmos lugares, agindo e falando parecido. E quando passa a ser aceita, não se contenta e cada vez mais busca se encaixar em algum grupo, buscando a aceitação e se sentir pertencente e amada por alguém.

O livro aborda temas como violência doméstica, falta de afetividade na infância, adolescência, amizade, drogas, prostituição infantil... então já deve imaginar como é uma história pesada (e muito triste), em alguns momentos eu cheguei a ficar com o estômago embrulhado, em outros, com os olhos cheios de lágrimas.
Christiane era uma criança normal, gostava de brincar e queria fazer amigos, sentia medo do pai que era muito agressivo, se sentiu rejeitada pela mãe quando ela arrumou um novo parceiro e talvez abandonada pela irmã que decidiu ir morar com o pai, que eu nem sei o que falar sobre esse pai... mas mesmo sabendo que o fígado da filha estava comprometido, ainda dava bebidas alcóolicas para ela (se bem que aqui no Brasil a lei que proíbe a entrega de bebidas alcóolicas para menores de 18 anos só entrou em vigor no ano de 2015, ou seja...).


"Aquele rosto não me pertencia nem aquele corpo esquelético. O corpo, aliás, eu nem sequer o sentia. Nem mesmo quando adoecia ele se manifestava. A heroína tornara-o insensível à fome, à dor e até mesmo à febre. Ele só despertava quando estava em crise". (p. 151)

A mãe foi a que mais lutou (de sua maneira) para que a filha saísse desta situação. Porém desde o início houve uma certa negligência em relação a filha, que ela mesma diz que no fundo sabia que Christiane estava usando drogas, apenas não queria descobrir a verdade, preferia fingir que isso não estava acontecendo. E é interessante observar que o medo dela em ser igual o seu pai, um homem muito rígido em relação a sua educação, a tornou uma mãe muito permissiva.
A questão da droga é um assunto muito sério, e a melhor forma de lidar é utilizando a prevenção, mas deve-se saber que falar que a droga mata não basta, a prevenção envolve desde uma boa relação familiar, para que o adolescente sinta seguro e não tenha necessidade de buscar algo que lhe permita fugir de um mundo onde não se sinta à vontade. Não que todos os casos sejam esse motivo, mas amor, carinho, afeto... nunca é demais.

Depois que terminamos o livro, várias dúvidas se formam: Christiane conseguiu sair das drogas? Ela ainda está viva? Então eu fui pesquisar. Pelo que eu achei, ela ainda está viva, escreveu outro livro “Minha segunda vida”,  porém parece que a heroína a acompanhou durante toda esse tempo e em uma entrevista que encontrei no Vice.

O que eu achei mais chocante, foi que o fato de ela ter se tornado uma drogada famosa ao publicar o livro e ao invés de isso ter trazido benefícios à ela, acabou prejudicando mais sua vida, não sei se não tivesse escrito sua história não teria mais usado heroína, mas o fato que ela mesmo diz, foi que com o dinheiro recebido (isso proporcionou a ela uma vida sem trabalho) ela pode comprar muita droga, ficando famosa e inclusive, teve uma carreira na música. Ela também diz que se arrependeu porque as pessoas ficaram curiosas em relação a ela, mas ninguém queria uma vida junto com ela (namorado, amigos).

 “Aquela falta total de solidariedade entre as meninas me enojava. Desde que se tratasse de problema com rapazes, todos os laços de amizade eram esquecidos. Exatamente como entre a Babsi, Stella e eu quando se tratava de heroína (p. 312).”

E quantas Christianes não estão por ai? Às vezes mais próximas do que imaginamos...
Até logo!

4 comentários:

  1. Eu li esse livro anos atrás e fiquei bem chocada, mas nem imaginava que o relato era real...
    Agora estou ainda mais chocada, como a vida pode ser diferente pra cada um de nós, concordo que ela era super comum, não mereceu a tudo que aconteceu :/

    Osenhordoslivrosblog.wordpress.com

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    1. Sim, acho que fiquei mais triste em saber que contar a história dela não foi tão bom para ela :(

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  2. Eu li esse livro há muitos anos atrás. Foi o meu melhor achado da biblioteca da minha antiga escola. Também fiquei com o estômago revirado lendo, mas a história me prendeu tanto que eu devo ter lido em umas duas madrugadas. Não sabia que ela tinha continuado com as drogas... :(

    Beijos,
    literarizandomomentos.blogspot.com

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    1. Pois é... fiquei ainda mais triste depois de saber disso!
      Beijos

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